
A CES (Consumer Electronics Show) é uma das maiores feiras de tecnologia do planeta. Perde em tamanho para a CeBit, que acontece anualmente em Hanover, na Alemanha, e em “futurismo” para a CEATEC em Tóquio, no Japão. Fundada em 1967, ao longo das últimas quatro décadas a CES foi palco de introdução de produtos que marcaram a história, desde o primeiro video-cassete (1970), passando pelo CD (1981), o Nintendo 8 bits (NES, 1985), o DVD (1996) e as primeiras TVs de alta definição (1998).
Trata-se de um evento gigantesco, espalhado em três grandes salões do Las Vegas Convention Center (LVCC), cada um subdidivido em mais salas e áreas de exposição. É humanamente impossível, para uma única pessoa, ver tudo o que há por lá durante os cinco dias do evento. Mapas (um para cada pavilhão, distribuídos gratuitamente em quiosques de informação) e uma boa agenda com o que você deseja ver, e onde, são indispensáveis. E mesmo assim, perder-se é algo facílimo.
A seguir, mostramos um pouquinho das tecnologias mais interessantes que encontramos por lá, compatíveis ou não com produtos da Apple, já que a vida digital está cada vez mais presente em nossas vidas. No meio de tantos produtos e acessórios, eles são os que consideramos com o maior potencial para deixar sua “marca” na indústria. E prepare-se: eles podem estar em sua casa muito antes do que você imagina.
O futuro da TV (ou as TVs do futuro)
Analisando os estandes dos vários fabricantes que expuseram seus produtos na CES, notamos quatro tendências que em breve estarão em sua sala de estar: a próxima geração de TVs será mais fina, terá imagens mais bonitas, mais realistas e será conectada.
Mais fina como a nova Panasonic Viera Z1. Pertencente à série “NeoPDP”, que utiliza uma nova técnica para produção de painéis de plasma, esta TV tem apenas 2,5 cm de espessura com uma tela Full HD de 54 polegadas. De tão fina, vista de lado é comum confundi-la com um quadro ou perdê-la de vista, e não estou apelando para um clichê.
Para atingir essa espessura a Panasonic teve de inovar e moveu todos os circuitos do sintonizador de TV, responsável pela recepção dos canais, para uma caixa (ou “set-top box”) externa. A inovação está no fato de que o sintonizador não é “plugado” à TV: não há um cabo sequer entre eles. O aparelho utiliza o novo sistema Wireless HDMI para transmitir uma imagem de alta definição. A tecnologia também deve aparecer em tocadores Blu-ray, Home Theaters e TVs de outros fabricantes ao longo deste ano.
As TVs também terão imagens muito mais bonitas, como os modelos da nova série Luxia, da Samsung. Baseados na tecnologia LCD, a inovação fica por conta do uso de LEDs para a iluminação da tela, em vez das tradicionais lâmpadas fluorescentes. A tecnologia, já em uso nos monitores dos novos MacBooks da Apple, reduz o consumo de energia e elimina uma das principais reclamações sobre as TVs LCD: os pretos “lavados”. O resultado são imagens com cores muito mais vivas e brilhantes, contraste muito melhor e pretos “de verdade”.
A Samsung e a Sony já mostram, com orgulho, o próximo passo: telas baseadas na tecnologia OLED, em que cada pixel, ou ponto da imagem, é um minúsculo LED (como aquele que indica se seu computador está ligado), impresso diretamente sobre um substrato de material plástico. O brilho e o contraste da imagem são simplesmente imbatíveis, chegando a 1.000.000:1, mas o processo de produção ainda é delicado e os fabricantes não conseguem produzir telas maiores do que 20 polegadas, o que inviabiliza a introdução em larga escala.
Isso não impede a Sony de comercializar uma TV OLED com tela de 11 polegadas como “prova de conceito” para aqueles consumidores ávidos por serem os primeiros a experimentar uma nova tecnologia: a XEL-1 tem 3 mm de espessura, resolução de 960 × 540 pixels (melhor que uma TV comum, mas longe da alta definição) e custa a bagatela de US$ 2.500.
Eu falei em realismo? Depois do HD e do Full HD, a próxima onda é o 3D. Praticamente todos os fabricantes mostraram aparelhos equipados com essa tecnologia, quase sempre baseados no mesmo princípio: uma tela capaz de exibir 120 quadros de imagem por segundo (ou seja, com uma frequência de 120 Hz) mostra duas cenas para cada quadro da imagem: uma para o olho esquerdo do espectador, e outra, ligeiramente diferente, para o olho direito. Óculos eletrônicos especiais, sincronizados com a tela, só deixam cada olho ver sua imagem correspondente. O cérebro “funde” as duas imagens e as recria como uma imagem tridimensional. De repente, a bola salta da tela e a heroína do filme parece estar ao alcance de suas mãos. Para games de corrida, é diversão garantida.
O método é particularmente eficiente em jogos de PC ou de consoles da geração atual, como o Xbox 360 ou o PlayStation 3, que precisam apenas de uma simples adaptação para tirar proveito da tecnologia. Filmes devem ser especialmente produzidos no novo formato ou, no caso de produções antigas, reprocessados para serem compatíveis. Acreditem: a sequência inicial de Star Wars: Episódio 4 ganha um novo impacto quando você vê os lasers dos Stormtroopers cruzando a tela em sua direção.
O mais legal desse método é que, se sua TV já é capaz de trabalhar a 120 Hz (já há vários modelos no mercado), você só vai precisar dos óculos, que atualmente tem um custo estimado em US$ 200. Eles funcionam sem fios, são alimentados por uma bateria interna (com autonomia para centenas de horas de uso) recarregável, podem ser utilizados sobre seus óculos de grau (na maioria dos casos, dependendo do design) e só interferem na imagem mostrada na TV: o mundo real continua intacto, apenas um pouco mais escuro, como se você estivesse usando óculos de sol.
E por fim, chegamos à questão da conectividade. Sony, LG e Samsung são apenas alguns dos fabricantes que demonstraram modelos de TVs equipados com o Yahoo! Widget Engine, um sistema que traz parte da internet, como notícias, previsão do tempo, fotos do Flickr e vídeos do YouTube, para sua TV.
Ele funciona de modo bastante parecido com os widgets do Dashboard no Mac OS X, ou os gadgets do Windows Vista: você interage com pequenos programinhas feitos para desempenhar apenas uma tarefa específica (por exemplo, baixar a previsão do tempo) que ficam “flutuando” sobre a imagem da TV ou agrupados em barras laterais. Alguns fabricantes estão incluindo widgets que, além do trivial, permitem alugar e assistir, via streaming, filmes em alta definição em sites como o Amazon Unbox e Netflix: basta ter uma conexão de banda larga.
Se você finalmente juntou todo o dinheiro e está pronto para comprar sua primeira TV de alta definição, meu conselho é esperar mais um pouco (e juntar uma graninha extra). Embora não haja previsão oficial de chegada desses produtos ao Brasil, meu palpite é “mais cedo do que se imagina” e definitivamente em 2009 para produtos como as TVs com telas LED e conectadas à internet. A sala de estar está se tornando um lugar cada vez mais interesssante.
Energia sem fios
Imagine a cena: você chega em casa após um dia de trabalho, tira o celular do bolso e o coloca sobre a mesinha ao lado da porta. Instantaneamente ele começa a recarregar a bateria, sozinho. Ficção? Que nada, essa cena será realidade ainda em 2009.
O responsável pelo feito é a tecnologia PowerMat, desenvolvida pela empresa norte-americana de mesmo nome. Trata-se de um sistema de transferência de energia elétrica através de indução eletromagnética. Com ele é possível transferir energia de uma estação-base, semelhante a um porta-copos, para seu gadget favorito sem precisar de um cabo sequer, bastando colocar um sobre o outro.
O aparelho, obviamente, precisa ser compatível com a tecnologia: para resolver isso a empresa desenvolveu adaptadores que podem ser acoplados a vários produtos, como o iPhone, iPod e outras traquitanas, e espera que, no futuro próximo, os componentes necessários sejam embutidos nos próprios aparelhos.
O mais legal do PowerMat é que ele pode ser embutido em outras superfícies, como mesas e pias. Imagine uma mesa do escritório equipada com PowerMat: sempre que seu notebook e celular estiverem sobre ela, estarão sendo recarregados. Será o fim da desculpa de “o celular estava desligado porque esqueci de recarregar”. Não há risco algum de choque elétrico, mesmo que você toque na mesa com objetos metálicos ou molhe a superfície. E a economia de energia é garantida por um sistema que analisa o quanto o aparelho realmente precisa e fornece apenas o necessário.
Em uma demonstração a portas fechadas (apenas para a imprensa) no estande da empresa vimos uma mesa de cozinha equipada com PowerMat, bem como uma parede de uma sala de estar. Pendurada na parede, uma TV LCD parecia funcionar como que movida por mágica, sem nenhum cabo de força visível. Para comprovar que não se tratava de um truque, o representante retirou a TV da parede e ela se desligou. Colocou de volta e ela ligou de novo. Um buraco na lateral da parede permitia ver os emissores PowerMat, bem pequenos, embutidos dentro da estrutura.
Segundo a empresa, os primeiros produtos devem chegar ao mercado no final de 2009. Os “tapetes” sobre os quais os gadgets são colocados custarão a partir de US$ 100 e os adaptadores para os gadgets atuais sairão por US$ 30 cada.
Alta definição no bolso
A queda vertiginosa nos preços, combinada ao aumento também rápido da resolução de imagem observada nas câmeras fotográficas digitais nos últimos anos está prestes a se repetir no mercado de filmadoras (camcorders) portáteis. Vários fabricantes, como RCA, Kodak e Creative Labs expuseram na CES seus novos modelos. Todos têm em comum três características: são compactos, relativamente baratos e muito fáceis de operar. Ah, e gravam vídeo em alta definição: 1.280 × 720 pixels a 30 quadros (ou mais) por segundo.
Os modelos que vimos parecem seguir a mesma receita que transformou a Flip Video, uma câmera extremamente básica e barata, em um sucesso de vendas que abocanhou 13% do mercado de vídeo doméstico nos EUA no último ano: faça apenas uma coisa, faça-a razoavelmente bem e sem nenhuma complicação.
Parece que as novas câmeras saíram da mesma forma: RCA Small Wonder (EZ209HD), Creative Vado HD e Kodak Zx1 tem design compacto, do tamanho de um maço de cigarros. Na frente há uma lente básica, sem zoom óptico. Na traseira um LCD de 2 polegadas. Os controles restringem-se a um grande botão de “Rec”, facilmente identificável, e mais alguns botões auxiliares que variam conforme o modelo. A interface é invariavelmente simples: o modelo da Kodak sequer tem texto nos menus, totalmente baseados em ícones de fácil compreensão.
Os modelos da RCA e Creative funcionam com baterias recarregáveis e autonomia para cerca de duas horas de gravação. O modelo da Kodak utiliza pilhas AA, com a mesma autonomia. A memória interna é de 2 GB (uma hora de vídeo em HD) na Small Wonder e 8 GB (quatro horas de vídeo em HD) na Vado HD. A Kodak Zx1 grava os clipes em cartões SDHC que podem ter até 32 GB, o que rende cerca de dez horas de vídeo em HD, segundo o fabricante.
As três filmadoras têm saída HDMI, para conexão direta com TVs de alta definição e se conectam ao computador via USB. Os software que acompanham as câmeras permitem a edição fácil dos vídeos, bem como seu upload para sites de compartilhamento populares, como o YouTube. Obviamente, os softwares são apenas para Windows e, sem testarmos, não é possível afirmar que o iMovie reconheça o formato de gravação dessas novas câmeras. Assim que elas chegarem ao Brasil, prometemos testes intensivos.
A Small Wonder EZ20HD chega ao mercado nos EUA no primeiro trimestre de 2009, com preço sugerido de US$ 119. A Vado HD já está à venda, por cerca de US$ 200. Já a Kodak Zx1 deve chegar às lojas em abril custando US$ 149. Para comparação, a concorrente mais próxima desses modelos, a Flip Mino HD, tem preço sugerido de US$ 200.
CES: A nova casa da Apple?
Com o anúncio surpresa feito pela Apple de que a Macworld deste ano seria sua última, muita especulação começou a circular pela internet tentando encontrar o motivo para a decisão e determinar o futuro dos eventos da empresa.
A Macworld, vale lembrar, é um evento promovido pelo IDG, grupo que publica a revista de mesmo nome, e é a maior feira voltada para a comunidade Mac no mundo. Na última década o evento se tornou famoso por conta das palestras de abertura, sempre proferidas por Steve Jobs, revelando produtos que marcaram a história da Apple e da informática em geral, como o iMac, o iBook, o AirPort, o iTunes, o iPhone e o MacBook Air.
O principal rumor era de que a Apple iria deixar a Macworld em favor da CES, uma feira muito maior que ocorre praticamente na mesma época. Com isso, evitaria dividir a atenção da imprensa, que atualmente tem de se desdobrar em duas para cobrir ambos os eventos, e conseguiria maior exposição: os jornalistas do mundo todo que cobrem a CES passariam a automaticamente cobrir também o que quer que seja o “lançamento da vez” da Apple.
O rumor não faz sentido por um detalhe: a Apple é uma das poucas empresas que não precisa correr atrás da imprensa, é a imprensa que corre atrás dela. Vejam, por exemplo, o lançamento do iPod em 2001, realizado em um evento exclusivo para poucos membros da imprensa e que teve repercussão mundial. Ou, mais recentemente, o lançamento dos novos MacBooks, em outubro de 2008.
Um evento “privado” tem custo muito menor que um estande em uma feira, além de logística muito mais simples, e a Apple ainda se beneficia de poder controlar “quem” participa, moldando o público de modo que seus anúncios tenham o maior impacto possível.
Além disso, a Apple pode agendar o lançamentos para a hora e local mais adequados, anunciando produtos quando eles estiverem realmente prontos, sem se submeter à agenda de uma feira que não está sob seu controle, ainda mais uma que acontece no início do ano e que pode frear um consumo mais voraz na época das festas. Além disso, a empresa não precisa se preocupar com a concorrência, seja a Microsoft com um novo Windows ou a Palm com um novo smartphone, tentando roubar o show.
O que pode acontecer, e de fato é até provável, é a migração dos expositores da Macworld, como fabricantes de acessórios e de software, para a CES, justamente para aproveitar a maior exposição. Eles sabem que um evento de Mac sem a Apple não atrai público, vide as feiras de Boston em 2004 e 2005, e não compensa o investimento. Mesmo o evento deste ano, que contou com a participação da Apple mas não de Steve Jobs, foi marcado pela presença muito menor do público. Em todos os lugares era possível ouvir o comentário: “nossa, isso está bem mais vazio do que no ano passado”.
O primeiro passo para essa “canibalização” da Macworld já foi dado: o iLounge, um dos sites especializados em iPod mais famosos do mundo, criou, em parceria com a CES, um espaço dedicado apenas aos acessórios para o iPod e iPhone, que são a maioria dos estandes da Macworld. E já venderam todos os espaços. A batalha entre a CEA (Consumer Eletronics Association, que organiza a CES) e a IDG já começou.
Teremos uma Macworld em 2010? Sim, o IDG até já confirmou a data. Em 2011? Difícil. Mas Apple na CES?
Mais improvável ainda.
17:26
Renato Santhinon






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